Todo meu amor

Em um final de semana, no último ano da Faculdade de Medicina, eu praticamente fugi do estágio rural em Santa Fé de Minas, o fim do mundo no norte de Minas, depois de duas semanas de isolamento, angústia e saudades da minha casa. Cheguei a Belo Horizonte só querendo o colo da minha mãe. Deitei a cabeça no seu colo, chorei um pouco enquanto ela fazia um carinho e me falava coisas reconfortantes. Nós duas estávamos surpresas porque cenas como aquela eram muito raras no nosso relacionamento. Eu sempre sentia falta da minha mãe e acho que ela de mim, porque sempre parecíamos estar léguas de distancia uma da outra.

Quando éramos pequenos, eu e meus irmãos, ela era carinhosa e atenta a tudo. Mas depois que crescemos um pouco, na adolescência, eu e ela começamos a nos afastar. Eu geralmente me comportava de uma maneira fria e prepotente.  Ela parecia intimidada comigo, mas é claro que só depois de adulta comecei a perceber isso.  Ela queria chegar mais perto, mas talvez nunca tenha encontrado uma brecha na minha autossuficiência. Disso resultou algum conflito, mas a distância entre nós duas foi o pior. Foi assim até quando tive meus filhos.  A partir daí nós nos aproximamos um pouco e ela esteve sempre do meu lado em todas as coisas práticas da vida. Amou e cuidou muito dos três, me deu apoio financeiro quando precisei e mostrava seu amor sempre nas pequenas coisas. Mas continuamos desconhecidas uma para a outra.

Luzia era seu nome, era sempre uma luz nas vidas das pessoas com quem conviveu, foi o centro da nossa família e para meu pai, o porto seguro. Não tinha muito estudo, e acho que por isso sempre senti que ela esperava muito de mim, tinha grandes expectativas que, se pelo lado profissional eu correspondi, por outro eu frustrei totalmente. Minha mãe queria ser minha amiga e eu dela.  Mas nenhuma de nós soube como fazer isso.

Na hora da sua morte, no meu pensamento, desejei a ela que fosse em paz, que ela soubesse que tinha feito tudo o que podia ter feito da melhor forma como podia fazer. Mas eu me esqueci de te pedir perdão, mãe. Eu poderia ter feito melhor.  Podia ter entendido sua insegurança e sua necessidade de mim, sua filha mais velha. Podia ter te feito um pouco a minha filha e ter te colocado no meu colo. Podia ter estado do seu lado naquelas noites em que, angustiada, esperava pelo meu pai até tarde. Podia ter tomado com você as caipirinhas, que você tanto gostava.  Podíamos ter rido juntas e eu podia ter te contado da minha vida. Mas perdemos essa oportunidade.  Onde você estiver quero que saiba que não vou perder a próxima.

Hoje você estaria fazendo 88 anos e eu estou com mais de 60.  Se eu precisei de todos esses anos para te entender, não vou precisar de muito tempo para te reencontrar de verdade na próxima vez e de te mostrar todo meu amor e minha gratidão.

Quero que saiba que falo sobre voce com os meus netos. Sua luz ainda está brilhando sobre mim, meus irmãos, seus netos e em todos que te conheceram. E agora você deve estar iluminando também um pedacinho do céu.






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