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“Histórias quase, quase, quase, quase comuns.” - Resenha

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“Olhou para baixo. Havia uma mancha escura sob a água da piscina. Desceu a escadinha para ver mais de perto, era um pequeno vão retangular, onde faltava um azulejo. Tocou aquele lugar com o dedão do pé. O vão se esticou e formou uma fenda que permitia a passagem de alguém tão pequeno como ele. Mergulhou e enfiou a cabeça pela fenda. Dentro era seco e escuro. Fedia... a quê? Peixe, talvez. Vislumbrou algumas luzes flutuando na escuridão. Decidiu entrar, a fenda era elástica e lhe deu facilmente passagem. Viu-se no meio de uma feira. Em uma barraca mulheres descamavam os peixes e tiravam suas barrigadas, que jogavam a um canto, onde uma ninhada de gatos aproveitava os restos.”   Não há nada de comum nas histórias escritas por Christina Amorozo no seu primeiro livro “solo” publicado pela Editora Metamorfose. É possível comprovar isso no trecho acima, o início do conto “Desagregação”, onde nos vemos enredados numa realidade paralela, mas totalmente verossímil até para o mais cético dos...

"Existe vida antes do primeiro livro" - Resenha

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  "Existe vida antes do primeiro livro" - Resenha "Existe vida antes do primeiro livro" é o primeiro livro de Cinthia Dalla Valle e nele ela nos conta sobre suas ansiedades, dúvidas e micos, ao pensar em publicar um livro. Cinthia mostra toda sua autenticidade e generosidade como escritora. De forma simples, despretensiosa e envolvente, incentiva os escritores iniciantes a perseguir esse grande sonho sem se deixar abater por críticas e evitando a qualquer custo a autossabotagem. Na primeira parte do livro, ela nos fala da sua premissa desde muito jovem: "só sei que sei escrever". A partir daí revela as dificuldades no caminho: como quebrar os mitos que nos fazem pensar não termos o tal "dom da escrita", nunca boicotar a própria escrita, impedir que a ansiedade te desvie do seu propósito e evitar o bloqueio do escritor. De forma corajosa e leve, ela fala sobre suas vulnerabilidades como pessoa e como enfrentar as críticas a que todos nós estamos e...

Bruxaria no Caminho

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      Nós já estávamos caminhando há sete horas, quase vinte e cinco quilômetros em terreno difícil e eu estava exausta, suja de lama e molhada. A chuva nos pegou na trilha no meio da mata fechada, na subida íngreme até Villafranca del Bierzo. Eu estava meio receosa, não queria voltar aquele lugar. Ali vivia Jesus Rato, o bruxo. Em boca miúda, se escutava entre os peregrinos as histórias estranhas sobre ele e seus poderes mágicos, coisas que estavam muito além da minha limitada compressão, mas das quais havia participado na minha primeira aventura no Caminho de Santiago. No último albergue onde paramos, durante a noite, só se falava em Jesus Rato e os rumores percorriam o alojamento. - Acho que não quero parar em Villafranca, não sou muito chegado à bruxaria. - Que bobagem, Marcelo, vamos embora, não dá para pular partes do Caminho. - Vá você então. Um amigo me contou que aquele homem tem poderes tipo telepatia, faz coisas se movimentarem na nossa frente, dá vida a o...

Uma façanha no tempo

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                                         No momento em que ele desferia mais um golpe de espada em um dos desalmados disfarçados em ovelha, algo inusitado aconteceu comigo e meu indômito cavaleiro. Primeiro ele sentiu um tremor por dentro de sua armadura e então uma espécie de vento imóvel nos suspendeu no ar como magia, o que nos deixou atordoados.  De repente, nós estávamos em um outro lugar.    Não tinha nem nome para aquilo! Uma multidão de pessoas com roupas de tecidos finos e coloridos caminhavam, sem armas, e aparentemente também sem propósito ou direção. Velozes cavalos de ferro se movimentavam tão rápido como flechas de um lado para o outro, quase passando por cima daquela gente. A aldeia era enorme, e construções, mais altas que as torres de qualquer castelo, escondiam os céus.  Mal podíamos ver uma nuvenzinha aqui e ali. Um barulho ensurdecedor parecia ...

Jonas e o espelho

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Quando Jonas estacionou o carro na porta da leiteria, percebeu que apesar da hora, a rua ainda estava movimentada. Alguns casais de namorados passeavam de mãos dadas e guardas noturnos faziam suas rondas habituais. Olhando para os lados, cogitou se deveria levar seu plano adiante. Mas, depois de alguns necessários minutos, suficientes para deixar alguns bilhetes no porta luvas para os amigos mais próximos, pegou a grande bolsa cor de rosa atrás do banco do motorista e saiu. Deixou a chave do carro no painel, bateu a porta e caminhou para a loja de brinquedos que ficava na esquina com o beco, ao lado da leiteria. É bem verdade que atraiu olhares curiosos no caminho, afinal, ele estava vestindo um pijama azul marinho com bolinhas vermelhas, de calças e mangas compridas e uma pantufa branca. Seus cabelos e barba compridos e desgrenhados, e um olhar sorridente fixo na sua bolsa cor de rosa, completavam o visual. Alguns poderiam jurar que ele tinha acabado de sair do manicômio. Bastou algun...

Vida e Morte Moçambique

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- - Tranquilo, mano! Não passa nada. A tempestade já foi. Agora é só o vento a cortar o resto do teu teto de amianto, tamo junto. - T amo junto, sim, neste buraco medonho. Mas estás enganado, esta não se trata da minha casa, é minha cova. Nossa cova!   - Pois não! Minha não é, não. O pior já pediu as contas. - O mundo está acabando em cima da gente, Bota. Não sabes de nada. - Escuta o ronco da tchopela a teimar na via esburacada, na lonjura, chapiscando no aguaceiro. Está tudo bem, mano. - Est ás escutando demais. Isso aqui é um silêncio e um breu mortal.  Não estou nem sentindo meu corpo! Está tudo muito estranho. -  O pior já passou, mano. Quando começou a ventania  e a tempestade dos diabos cortou os céus clareando a noite e tudo desabou nas nossas cabeças, eu tive medo. Achei que por aqui findava os nossos dias folgados. Pois não é? Tu já percebeste como eram folgados aqueles nossos dias? - Meus dias não eram folgados. Os teus sim eram folgados, tam...

O homem do chapeu-coco

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O homem caminhava lentamente de cabeça baixa, indiferente à chuva que começava a engrossar. Fechou sua capa e puxou a aba do seu chapéu-coco sobre os olhos.  A cidade àquela hora parecia morta e o silêncio só era cortado pelo barulho dos pingos d’água na calçada formando poças aqui e ali. Nenhum ruído da cidade grande, nem os gritos dos cocheiros nem o murmurinho dos feirantes.  As luzes dos lampiões da Baker Street refletidas nos paralelepípedos molhados deixavam a rua brilhante.  Chutou com força a caixa de correio no caminho e levou as mãos ao rosto sacudindo os ombros convulsivamente. Uma luz se acendeu na janela do prédio ao lado e um olho assustado surgiu por trás da cortina. Ele colocou as mãos no bolso da capa e continuou, de cabeça baixa, até o número 221B.  Quando levantou a cabeça para abrir a porta da sua casa ele percebeu aquele vulto há cinco passos de distância. Nenhum sinal de surpresa ou sobressalto. Ele simplesmente virou-se lentamente abaixando as ...